Imagine um homem que, num instante comum da rotina, sofre um mal súbito ao volante.
Um coração que falha, um carro que colide, e tudo aquilo que parecia garantido se desfaz em poucos segundos. A ambulância chega, há uma corrida contra o tempo, mas a vida já decidiu encerrar ali seu ciclo. E é a partir dessa morte que o livro começa não como um fim, mas como um convite ao olhar para trás.
A família, ainda atordoada, se vê diante das exigências do velório. Nesse processo, um amigo próximo do falecido é encarregado de escrever um discurso de despedida. Mas, em vez de algo formal e impessoal, ele escolhe transformar o texto numa carta íntima, direta ao amigo que partiu.
Ali, entre memórias e desabafos, ele reconstrói a trajetória de um homem complexo: alguém que colecionou escolhas duvidosas, descuidos afetivos, arrogância profissional, e amores paralelos.
Ao longo da leitura, não é a morte que assombra é a vida que inquieta. O que poderia ter sido dito? O que deixou de ser feito? Quantas vezes postergamos um gesto, uma conversa, acreditando que sempre haverá tempo? A narrativa toca profundamente nesses pontos, de forma delicada e poética, com uma escrita repleta de nuances e pausas para reflexão.
Sérgio Júnior conduz essa história com leveza e lirismo, mesmo quando mergulha nas partes mais densas. Ele não julga os personagens, apenas os expõe. E é nesse espelho que nos vemos também com nossas falhas, ausências, omissões e esperas.
“Eu, no seu funeral” não é apenas uma história sobre despedidas. É um alerta silencioso sobre presença, sobre tempo, sobre tudo aquilo que deixamos para depois. E talvez, como diz uma das frases mais impactantes do livro, estejamos todos vivendo como se tivéssemos a certeza de que haverá um depois para tudo.


