Imagine entrar no sétimo andar de um prédio abandonado. O chão de cimento está rachado, as janelas, estilhaçadas; os móveis, em ruínas. O silêncio é denso quebrado apenas pelo bater de asas de pombos que atravessam o cenário sombrio. A escuridão domina o ambiente, e a única fonte de luz vem de uma velha câmera que insiste em funcionar. Três pessoas comuns estão ali, mas nada é por acaso. Existe um propósito oculto naquele cenário apocalíptico e só uma delas conhece a verdade.
É nesse clima de tensão psicológica que Vitor Costa nos convida a mergulhar em O Anti-Clichê e Outros Contos. Com uma escrita crua, direta e carregada de intensidade emocional, o autor constrói um mosaico de histórias que transitam entre o horror, o existencialismo e os desvios da mente humana.
Cada conto possui identidade própria, mas todos compartilham um elemento central: personagens em conflito com seus próprios demônios, imersos em situações-limite que provocam reflexão e desconforto.
No impactante “Dez Minutos”, adentramos a mente de Kevin, que está prestes a morrer. Ele não grita, não tenta escapar apenas conversa consigo mesmo e com a própria morte, tentando compreender quem a enviou e por quê. Trata-se de um diálogo com o destino, permeado por arrependimentos e reflexões dolorosas.
Em “Carnagem Club”, acompanhamos Wagner em sua obsessão pelo corpo, em sua busca por aceitação e nas frustrações que o consomem. Após uma festa decepcionante, um sonho perturbador e uma notícia devastadora, o leitor é deixado com a sensação de que há algo muito errado… e muito mais profundo do que parece.
Mas é no conto que dá nome à obra, “O Anti-Clichê”, que Vitor Costa leva sua escrita a outro patamar. Conhecemos Aníbal, um homem corroído pela amargura e pela nostalgia de um triângulo amoroso mal resolvido. Anos depois, isolado e perturbado, ele decide “recontar” sua história à sua maneira com Sara e Rafael, seus antigos afetos, como protagonistas involuntários de um roteiro de terror que ele mesmo dirige. O desfecho é simbólico, cruel e impregnado de rejeição.
Vitor Costa entrega uma coletânea de contos que inquietam e fascinam. Sua linguagem é intensa, por vezes brutal, mas sempre profundamente humana mesmo ao explorar seu lado mais sombrio. Com cenários bem construídos, personagens complexos e narrativas que fogem do óbvio, o autor oferece ao leitor uma experiência que vai além da leitura: é quase um confronto.
O Anti-Clichê e Outros Contos é uma obra que desafia. Não espere conforto nem finais fáceis. Cada história é um convite ao abismo e, ao mesmo tempo, um espelho. Se você procura contos que rompem com o convencional, com atmosferas densas e reflexões provocadoras, este livro merece um lugar não só na sua estante, mas também na sua memória.


